Acho que nunca mais consigo fazer um post que contenha concomitantemente as palavras: "palíndromo", "narguilés", "tergiverso", "preâmbulo" e "doravante".
A não ser este mesmo que, de quebra, tem "concomitantemente".
Andei pensando uma coisa, entre um cigarro e outro. E, até por estar entre um cigarro e outro é que andei pensando uma coisa. [esse parágrafo daria um ótimo palíndromo, se fosse um palíndromo].
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos. [isso sim é um palíndromo, que aliás tem tudo a ver com a coisa que andei pensando entre um cigarro e outro]. Tudo bem, vem comigo. Olha só.
Essa só vai entender quem é fumante, aquele tipo de gente que passa a vida entre um cigarro e outro [até que o cigarro resolva acabar com essa festa do caqui que é a vida]. E mais, quem vai entender melhor é um tipo de fumante mais específico: o que anda de ônibus. E não necessariamente em Marrocos.
E não é uma sub-raça, essa dos fumantes que andam de ônibus. Pode observar. Num raio de 10 metros de cada ponto de ônibus, o chão, a rua, as calçadas, a soleira das casas, os canteiros, os bueiros, enfim, a área está toda coberta de bitucas, pontas, guimbas, a maioria com mais da metade do tabaco intacto [exceto em Marrocos, em que a tal área, como é sabido, está cheia de narguilés abandonados pela metade].
Mas tergiverso, tergiverso.
Ou não. Todo esse preâmbulo foi para fundamentar a teoria. E a cereja do bolo vem agora.
Como todo fumante que anda de ônibus bem sabe, se há uma coisa infalível nas leis da natureza é a relação entre a vontade, o impulso de fumar [enquanto se espera o ônibus] e a iminência da chegada de seu ônibus. Obviamente, quanto mais tempo se espera pelo ônibus, maior é a probabilidade do mesmo chegar a qualquer momento. E também maior é a vontade de fumar.
Digamos que o fumante que anda de ônibus - que doravante atenderá por "fumante que anda de ônibus" - está há, digamos, trinta e cinco minutos, de pé, debaixo de sol ou chuva, apressado e cansado, esperando a sua hora de entrar em um ônibus e chegar em sua casa, onde poderá fumar sossegadamente seu querido cigarro. O tempo passa, o ônibus não chega e o vício começa a resmungar. O cérebro, que abriga tanto o vício quanto a consciência de que, se o ônibus chegar, vai ter que apagar seu cigarro, encontra-se então num conflito. Um conflito bem besta, mas um conflito.
Geralmente o vício, que sabe ser bem persuasivo, invariavelmente ganha a partida. E lá vai ele, o fumante que anda de ônibus, acender seu último Carlton, como se fosse um cidadão marroquino comum: "Ah, dá tempo, Allah há de!", ilude-se o fumante que anda de ônibus.
E - A-HÁ! - aqui se opera o milagre!
O fumante que anda ônibus nem dá sua segunda tragada e - A-HÁ de novo! Te assustei? - eis que vem chegando o tão aguardado veículo de transporte coletivo. Aliás, "vem chegando" nada, o bicho se materializa imediatamente em sua frente, com suas portas douradas e convidativas. Não falha nunca! Pergunte a qualquer fumante ou, se não ficar satisfeito, comece a fumar e venda seu carro!
[é claro que só funciona quando a vontade de fumar do fumante que anda de ônibus é genuína. Senão, "hohoho, vou acender um cigarrinho que o ônibus chega rapidinho, hohoho!" A Natureza é sábia.]
Essa é uma Lei Natural não prevista por Murphy, que provavelmente não chegou a ser um fumante, pois um ônibus o atropelou antes, no meio de um deserto no Marrocos.
Um dia vou escrever um post explicando como os fumantes que andam de ônibus, unidos, poderão dominar o mundo ao acenderem seus cigarros em momentos estratégicos e pré-combinados e provocando horríveis acidentes [que envolvem a materialização de veículos pesados sobre carros, motos e pedestres não fumantes] e engarrafamentos-monstro que se estenderão até o Marrocos.
Descobriu-se uma versão secreta do já famoso Manual de Redação da Folha. Aparentemente, contém regras que são usadas à exaustão em textos jornalísticos do referido veículo, pois as mesmas fazem parte do inconsciente coletivo jornalístico. Destas regras nenhum profissional da área jamais conseguiu escapar, apesar de não serem parte do currículo dos cursos de Jornalismo que existem por aí.
Alguns exemplos:
Norma Jornalística Nº35a - Substituição de Sujeito por Termo Indicativo Irrelevante
Quando a matéria, artigo, texto ou bobagem irrelevante - neste caso, principalmente a bobagem irrelevante - contiver as personagens listadas a seguir entre colchetes [Xuxa, Angélica, Adriane Galisteu, Madonna, Hebe Camargo, Milene Domingues, Ana Maria Braga, Eliane, Britney Spears e Rogéria, entre outras listadas no anexo B, págs. 44 a 49], é obrigatória a alternância do nome da personagem ["sujeita"] e Termo Indicativo Irrelevante 'A loura' em inícios de períodos. Ex: "Xuxa não mostra sinais de cansasso (sic) em sua brilhante carreira (...). A loura anunciou ontem o lançamento de sua linha de dentes postiços coloridos para os baixinhos (...)"
Norma Jornalística Nº49 - alínea c do caput 5 - "De como cagar a vida de alguém"
Quando a matéria, artigo, texto ou bobagem irrelevante tratar de abuso, violência ou qualquer tipo de agressão doméstica generalizada contra menores de idade, é ética e obrigatória a ocultação da identidade do agredido, através da publicação apenas de suas iniciais e idade. Também é obrigatória a publicação dos nomes completos de seus pais e, quando possivel, de seu endereço e ocupação. Ex: "Foi feita ontem na 36ª DP a denúncia de agressão e abuso sexual sofridos por A.C.C.F.T., de 6 anos (...) Os acusados do ignóbil crime são seus pais, o engenheiro Pedro Henrique Freitas Tavares e a dona-de-casa Maria de Lourdes Coutinho Tavares, que moram na R. Tibiriçé nº35, numa casa de material inflamável, cujo vigia costuma cochilar das 3 às 5h da manhã."
Norma Jornalística Nº 188d - Aposto Nominal Explicativo Oboni
Sempre - mas sempre meeeesmo - que a matéria, artigo, texto ou bobagem irrelevante citar o ex-diretor da Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, será obrigatório o uso do Aposto Nominal Explicativo 'o Boni', entre vírgulas. Ex: "(...)na reunião estava presente José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que negou as acusações de pacto com o Demônio (...)"
E viva!
Começa oficialmente o período do ano em que seremos bombardeados com bundas purpurinadas, tetas refeitas a baciada, genitálias desnudas e carnudas, enredos que homenageiam desde Proust a Nair Bello, declarações emocionadas de atores/modelos/promoters/atletas/flanelinhas sobre a beleza, espontaneidade, vibração, poesia, caráter folclórico e energia e o caralho do carnaval brasileiro, edições especiais de programas dominicais que trazem a história sofrida da porta-bandeira nascida no morro cujo talento se sobrepôs às adversidades desse Brasilzão e que a faz brilhar incandescente no sambódromo mas que no resto do ano apanha do marido cachaceiro e é humilhada pela patroa socialite - que também sai como destaque pela mesma escola, contagiada pelo espírito de comunidade e brasilidade tão imenso do carnaval minha gente -, Regina Casé mostrando as diferenças entre as folias do Rio de Janeiro e Carazinho [RS] e mostrando que o Brasil no fundo dança e celebra a vida na batida de um só tamborim verdeamarelo, mais tetas refeitas às pressas com purpurina invadindo as cicatrizes mal fechadas, alguns escândalos no camarote da Vivo e as fotos do primeiro carnaval de Sacha no sambódromo inspirado no Vaticano que Xuxa mandou construir só pra ela em sua casa no Jardim Botânico, as vinhetas de extremo mau gosto com a Globeleza caracterizada de "cavala-dourada-do-oriente-em-um-futuro-próximo", reportagens sobre o lado-cidadania da festa mais popular do país, em que criancinhas são ensinadas desde cedo a ter uma profissão reconhecida [captadoras de material percussivo, ou seja, elas descolam os gatos para os tamborins] e, mais tarde, talvez, um lugar de destaque na sociedade, nem que seja destaque de carro alegórico, e mais reportagens sobre as engrenagens das grandes escolas de samba, com entrevistas com a tiazinha que passa o ano catando lantejoulas na rua e as recupera através da força de seu amor pelo Carnaval e as imagens chocantes da galera que empurra os carros alegóricos e um especial sobre o tiozinho cego que faz esculturas enormes em isopor, em mostras de talento que fazem levantar a galera [ninguém comenta que o tal tiozinho ficou cego justamente pelos fragmentos de isopor que invadiram sua córna, acumulados desde 1971] e a grande novidade estética da temporada: o implante do terceiro seio!, que faz estourar as visitações ao blog Terceito Mamilo, e as declarações indignadas de gente séria e comprometida com o bem-estar social ["é por isso que o Brasil não anda pra frente, o ano só começa em março, se todo o dinheiro do carnaval fosse revertido para obras sociais, ah essas empresas que patrocinam o carnaval deviam investir na proteção do meio ambiente e na educação, e a bunda daquela ali, que que ela tá pensando, que tem 20 anos?"] e o César Tralli cobrindo o tráfego nas estradas e o Maurício Kubrusly fazendo estrepolias na concentração e a Gloria Maria cobrindo o nascimento pré-maturo da mulatinha apenas 4 minutos antes da entrada de sua mãe porta-bandeira sofrida no sambódromo e que promete ser a revelação do carnaval de 2020 ["porque, gente, esse é o retrato do Brasil, do povo que já nasce com o samba no sangue e no pé"] e as imagens da placenta purpurinada sendo pisoteada pela bateria que avança, numa analogia da beleza versus pobreza e uma mensagem forçadíssima da Globo, e o Leão Lobo cobrindo o Gala Gay do Ilha Porchá e flagrando um mascarado que você jura que já viu numa novela rural da Globo, e as edições especiais das marcas de cerveja [Brahma Beijo, Skol & Suor, CarnKaiser e SchinSexo] e as imagens de distribuição gratuita de camisinhas nas ruas de Salvador, que em breve estão cheias voando pelos ares enquanto o povo chafurna nu na espuma sintética que jorra do trio elétrico dos Novos Tribalistas [Luisa Possi, Sander e Zabelê] que acabaram de lançar sua versão eletro-baticum de "O Abre Alas" e, no meio de tudo, a morte inesperada de um nome importante da literatura nacional que acaba passando despercebida na imprensa porque "rolou um sexo real no Big Brother 4"...
... e o sono, e o sono, e o sono.