Fiquei com medo de mim mesmo ao escutar Sarah Brightman pela enésima vez, com sua voz infantilzinha e seus vícios vocais e - ai ai ai - sinceramente gostar. É claro que não estou falando de bobagens como "Con tè partirò" e sim de "Nessun Dorma" (Turandot, Puccini). Mas fiquei um pouco preocupado.
Mas pouco depois percebi que nem tudo está perdido, pois ainda tenho engulhos e vomito por dentro ao escutar [o verbo "ouvir" não se aplica muito aqui] coisas como Beastie Boys.
Acredito que uma pessoa tem a obrigação de cultivar certos preconceitos, para sua própria saúde musical. Conheço casos terríveis, como as netas do Dorival Caymmi filhas de Nana Porcaymmi, que dançam o Bonde do Tigrão, renegando alguns genes vitais [os tetranetos do velho deverão ser alguma espécie de pagodeiros punk]. É como se os netos de Einstein resolvessem fritar seus cérebros com ecstasy.
Eu, que venho de uma linhagem de ouvintes de Julio Iglesias, Roberto Carlos, Irmãs Galvão e Roberta Miranda, ainda me esforço para passar alguma mutação benéfica para minhas futuras descendências. Obviamente o período reggae de 1995 e um efêmero interesse por vida e obra de Raul Seixas representam uns passos atrás, mas estou tentando consertar/concertar.
Viagem de carro. Engarrafamento. Baladinhas de beira de estrada. Lésbicas Motoqueiras Xamãs. Hell's Angels de Juquitiba. Risadas. Premê. Haydée. Santa Catarina. Casa maravilhosa de frente para o mar, areia fina, águas quentes, cortesia de Lemãozinho. Aftas arden. Gatinha. Muito sol. Vici'hos. Churrasco. Lilo e seus Gordos. Garçon surdo. Sobremesas preconceituosas. Ócio na areia. Camarão e cação e cerveja e caipirinha. Siri. Risadas. Pinhé. Ousadias com sal. Cinzeiros invejáveis. Uma compra no tamanho e cor errados. Cookies da Kaori. Leseira. Camisetas exclusivas. NO TELEVISION AT ALL! Coisas piçarras. Pele queimada, cabelo seco. Bloco Tô Facinha. Púdel. Oma. Máscaras exclusivas [medo]. "Aaaaaah, como assim?"
Foi um CARNAVAL D'HAYDEE COMO HÁ MUITO TEMPO NÃO SE OUSAVA FAZER!