Hoje eu vi um grupo de sete ou oito minúsculos pardais espancando um gavião médio da proximidade de seus ninhos, no meio de gritos e bicadas. Puseram o gavião para correr, ou voar.
Se eu fosse gerente de RH ou trabalhasse com motivação laborial, com certeza estaria agora redigindo uma fabulazinha enfadonha que mostraria como a união de várias pequenas forças podem suplantar uma força supostamente maior e atingir um objetivo comum.
Mas como estou livre dessa sina, eu me limitei a terminar meu cigarro, pensar algo como "gavião idiota, bem feito" e escrever um post.
Eu reconheço que sofro de vários distúrbios crônicos quando o assunto é leitura. Eu leio muito, desde feto, e assim a gente acaba contraindo certas deformidades e vícios incontroláveis. Nada que prejudique sua vida com gravidade, mas que, por vezes, dependendo do grau de contaminação, requer certos cuidados.
Bulimia Literária. O doente chafurda no(s) livro(s), devora tudo em poucas horas, às vezes sem mastigar, até se sentir completamente entupido com seu conteúdo. Começa com umas crônicas ligeiras, para abrir o apetite. Então vem a salada, aparentemente leve mas nutritiva. Um Ítalo Calvino fininho. Daí engata um Machado de Assis, com muito molho. Decide se arriscar, fechando a orgia com uns continhos básicos, docinhos. Ainda não satisfeito, relê o Deus Segundo Laerte, como digestivo. Depois de fumar umas noticiazinhas de jornal, vomita tudo e recomeça a orgia.
"Doença do Hamster". Medo paranóico ancestral de ficar sem o que ler. Tal qual o hamster que guarda restinhos de comida nas bochechas, o paciente mune-se de material literário, consumido pela metade, pilhas de livros meio-lidos no criado-mudo. Em casos de desespero, como durante crises de insônia, consome-os aos pouquinhos, à medida que acrescenta mais material semi-digerido ao estoque.
Síndrome da Heloísa Gutembergomaníaca. A vítima dessa anomalia enamora-se perdidamente por determinada(s) obra(s), a ponto de acreditar que ao fim do último capítulo sua vida perderá grande parte do significado. É um caminho triste e sem volta. O paciente começa a racionar o consumo do conteúdo da obra, ao mesmo tempo em que parece não enxergar à sua volta outros textos tão bons quanto o objeto de sua obsessão. Inicia-se uma tortura ilógica, em que se permite a leitura de apenas uma ou duas páginas por sessão, geralmente diária. O terror cresce acompanhando o número no rodapé da página. Em alguns casos graves, o anômalo chega a consumir até o índice remissivo e a bibliografia. Tratamentos a base de releitura em looping foram tentados, porém sem sucesso.
Distúrbio My Precious. Não confundir com a Síndrome da Heloísa Gutembergomaníaca. Trata-se da dificuldade incontornável de se desfazer de qualquer obra impressa. Surtos de generosidade, como a doação de obras para instituições, podem ocorrer, mas são geralmente seguidos por sintomas como depressão e choro. A venda dos volumes nunca ocorre, pois o distúrbio tem natureza psico-religiosa e interpretaria o ato como a prostituição crua de seus bens. O empréstimo de obras de estimação, quando ocorre, é feito sob estrita supervisão e merece o mais alto grau de preocupação por parte do paciente, e pode causar vômito.
O apego à figura física do livro, ainda que este esteja obsoleto ou em mal estado, torna-se um estorvo patológico à medida que causa crônica [nham!] falta de espaço e problemas com ácaros e traças.
Autismo Literário Agressivo. O portador dessa doença torna-se completamente alheio ao ambiente exterior às palavras do livro consumido, mergulhando num estado de letargia física somente interrompido pelo mecânico virar das páginas. Ao mesmo tempo, torna-se extremamente sensível a qualquer fator externo que venha a separa-lo, mesmo que momentaneamente, de seu mundo particular criado pela leitura. O comportamento nessas ocasiões é classificado em seu grau mais brando como anti-social. Não obstante, já foram registrados casos de agressão verbal ou física.
Por falta do que escrever, eu finalmente elegi as 3 melhores palavras para se dizer usando o charmoso sotaque do interior paulista: "borsa", "bissurdo" e "vurva".
Pratiquem! Usem indiscriminadamente!